Atos reuniram diferentes categorias durante a semana de esforço concentrado no Congresso; mesmo com a pressão das ruas, proposta segue sem data para votação
A luta pelo fim da escala 6x1 ganhou um novo capítulo nesta semana em Brasília. Trabalhadoras, trabalhadores e dirigentes sindicais ocuparam as ruas da capital federal e as proximidades do Senado para exigir a votação da proposta que reduz a jornada semanal sem diminuição salarial e assegura dois dias de descanso.
As mobilizações começaram na segunda-feira (10), com um ato em frente à sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na quarta e na quinta-feira (12 e 13), a pressão chegou ao Anexo II do Senado Federal, durante a primeira semana de esforço concentrado do Congresso antes do período eleitoral.
Com a proposta já aprovada pela Câmara dos Deputados, as entidades cobram que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), permita o avanço da matéria. A PEC 221/2019 reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, preserva os salários e assegura dois dias de descanso remunerado. No Senado, o texto ainda aguarda despacho e deverá passar pelas comissões antes de chegar ao Plenário.
O presidente da CUT-DF, Rodrigo Rodrigues, destacou a diversidade de categorias presentes nas atividades e reafirmou que a redução da jornada interessa ao conjunto da população trabalhadora.
“Estamos aqui com trabalhadores do comércio, bancários, empregados dos Correios e representantes de diversas categorias. Essa é uma pauta de toda a classe trabalhadora, porque todos têm direito ao descanso, à convivência familiar, à saúde e ao tempo para viver. Vamos manter a pressão até que o Senado cumpra sua responsabilidade e coloque a proposta em votação. Aprovar o fim da escala 6x1 é fazer justiça com quem produz a riqueza deste país”, afirmou.
O secretário da Juventude Trabalhadora da CUT-DF, Tiago Neves, relacionou a jornada extensa ao adoecimento e à perda de qualidade de vida.
“O Brasil não aguenta mais a escala 6x1. O que vivemos é uma forma de escravidão legalizada, com uma classe trabalhadora adoecida e pedindo socorro. Trabalhador não é máquina. Somos nós que produzimos a riqueza deste país e merecemos respeito, saúde e tempo de vida. Aprovar o fim da escala 6x1 é reconhecer essa contribuição e garantir condições dignas para quem trabalha”, declarou.
Durante os atos, dirigentes também criticaram a resistência encontrada pelas propostas de interesse da classe trabalhadora no Congresso Nacional. Para Faustão, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telégrafos do Distrito Federal (Sintect-DF), o ritmo da tramitação revela as prioridades de parte dos parlamentares.
“Esse projeto foi aprovado na Câmara e chegou ao Senado, mas uma disputa política impede que seja colocado em votação. Quando a pauta é dos trabalhadores, aparecem argumentos sobre prejuízos e dificuldades de implementação. Quando interessa ao Congresso e aos grandes empresários, tudo anda rapidamente. O trabalhador movimenta este país todos os dias, com seu esforço e seu suor. O Senado precisa olhar para a população brasileira e aprovar uma medida que melhore sua vida”, afirmou.
O dirigente do Sindicato dos Comerciários do Distrito Federal, Luiz Saraiva, lembrou que a escala 6x1 atinge milhares de pessoas no comércio e compromete o tempo dedicado à família, aos estudos e ao descanso.
“Estamos aqui representando milhares de trabalhadoras e trabalhadores que reivindicam melhor qualidade de vida. O Senado precisa ouvir a população e colocar essa proposta em pauta o mais rápido possível. O momento de votar já chegou. Um trabalhador mais descansado produz melhor, adoece menos e tem condições de estudar, cuidar da família e construir outros projetos para sua vida”, disse.
Raimundo Nonato, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores na Limpeza Urbana (Sindlurb), também citou a paralisação do projeto que trata da aposentadoria especial dos garis e criticou a diferença entre a jornada dos trabalhadores e o calendário de atividades do Congresso. Para ele, a população deve observar o posicionamento de cada parlamentar antes das eleições.
“Faltam poucos dias para as eleições e o povo brasileiro precisa saber quem tem compromisso com quem trabalha. Enquanto o fim da escala 6x1 permanece parado, os parlamentares cumprem uma jornada muito diferente da realidade da maioria da população e afirmam que a proposta pode quebrar o país. O que prejudica o Brasil é o excesso de privilégios e a falta de compromisso com a classe trabalhadora. Vamos mostrar à população quem se recusa a votar pautas essenciais”, declarou.
O dirigente licenciado do Sindicato dos Bancários de Brasília, Jacy Afonso, classificou a demora como uma postura antidemocrática da presidência do Senado. Ele chamou atenção para os efeitos da jornada sobre as mulheres, que acumulam o trabalho remunerado e as tarefas domésticas e de cuidado.
“Na Câmara dos Deputados, o processo avançou. A proposta está no Senado desde maio e continua parada por uma decisão do presidente da Casa. Queremos o fim dessa escala para beneficiar os trabalhadores de todo o Brasil, especialmente as mulheres, cuja jornada muitas vezes é 7x0. Davi Alcolumbre precisa agir como senador do povo e colocar essa PEC em votação”, afirmou.
No mesmo dia em que trabalhadores ocuparam o Anexo II, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com Davi Alcolumbre para tratar de propostas consideradas prioritárias pelo governo. O encontro permitiu o avanço de parte da pauta legislativa, mas não resultou na definição de uma data para a votação do fim da escala 6x1.
A ausência de um encaminhamento frustrou a expectativa de que a proposta avançasse durante a semana de esforço concentrado. O Senado deverá retomar as deliberações entre 31 de agosto e 3 de setembro, última janela prevista antes das eleições. Lideranças do governo afirmam que continuarão pressionando pela análise do texto, enquanto setores do Congresso defendem que a votação ocorra somente após o período eleitoral.
Sem uma resposta concreta do Senado, os três dias de mobilização mostraram a disposição da classe trabalhadora para manter a pauta nas ruas e ampliar a cobrança sobre os parlamentares. A presença de comerciários, bancários, trabalhadores dos Correios e representantes de outras categorias reforçou que o fim da escala 6x1 ultrapassa os limites de um setor profissional. A reivindicação reúne quem exige tempo para descansar, cuidar da saúde, conviver com a família, estudar e viver além do trabalho.