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Com reajuste no preço da gasolina, motoristas por app trabalham mais e ganham menos

Além do preço elevado dos combustíveis, o baixo repasse das empresas aos trabalhadores também é um agravantes e tem impulsionado a desistência da profissão

Publicado: 17 Setembro, 2021 - 15h24 | Última modificação: 17 Setembro, 2021 - 15h54

Escrito por: Leandro Gomes

Fernanda Carvalho/Fotos Públicas
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Todos os dias, Luciano Brito sai de casa para trabalhar como motorista por aplicativo. Pai de três filhos e tendo a profissão como única renda da casa, ele costumava trabalhar cerca de 7 horas por dia para conseguir pagar todas as contas e oferecer à família uma vida com dignidade.

Entretanto, com os constantes reajustes no preço da gasolina ─ que, no DF, chegou a bater quase R$ 7 ─ e sem qualquer amparo do governo ou das empresas por aplicativo, Brito precisou reorganizar sua rotina para manter o estilo de vida e garantir que a esposa e os filhos tenham acesso ao mínimo.

A primeira grande mudança na vida do motorista foi na reestruturação da carga horária. Se antes, eram necessárias 7 horas de trabalho diárias, hoje, o tempo dedicado ao trabalho quase que dobrou.  São, pelo menos, de 12 a 13 horas para conseguir ter os mesmos ganhos. Outro grande prejuízo sentido pelo motorista foi quanto aos custos para a corrida. A escalada no preço da gasolina, trouxe consequentes reajustes em outros itens, como explica Brito.

"Depois que o combustível aumentou, subiram os gastos para nós, motoristas. Porque quando sobe o combustível, sobe tudo, a manutenção do carro, tudo. Se antes a gente colocava R$ 100 de gasolina, hoje, temos que colocar R$ 150. Sem contar nossos ganhos, que diminuíram 50%", disse.

Enquanto Brito conseguiu se reinventar e manter sua renda, outros motoristas por aplicativos não tiveram a mesma sorte. De acordo com o presidente do Sindamaap ─ sindicato que representa a categoria no DF ─, Marcelo Chaves, de 30% a 40 % dos trabalhadores desistiram da profissão na capital federal. Muitos deles, segundo o sindicalista, migraram para a entrega com motocicleta, que gasta menos combustível, mas, em contrapartida, ganha bem menos do que os que transportam passageiros.

E essa evasão dos profissionais já é sentida também pelos usuários. Rosimária Silva, que costuma usar os serviços aos finais de semana, conta que tem enfrentado grande dificuldade para solicitar uma corrida. "Antes, a gente ia pedir uber ou 99 e, em questão de segundos a viagem era aceita. Agora, parece que não tem mais a mesma quantidade de motoristas. Demora muito mais. Isso, quando conseguimos", afirma.

Além do preço elevado dos combustíveis, o baixo repasse das empresas aos trabalhadores também é um dos agravantes que impulsiona a desistência da profissão.  Recentemente, como forma de cobrir os custos da categoria, a Uber anunciou um reajuste de até 35%, e a 99 de 10% a 25%, no ganho das corridas. Porém, segundo o presidente do Sindmaap, devido à inflação, os valores são irrisórios e sequer foram sentidos pelos motoristas.  

"As empresas aumentaram os valores cobrados aos passageiros, mas não repassaram esse aumento aos motoristas. É uma situação complicadíssima. Estamos lutando contra multinacionais que não estão ligando para o trabalhador. A conta simplesmente não fecha. A categoria está tendo grande dificuldade para se manter com essas altas exorbitantes. Nosso trabalho tem se tornado inviável", afirmou.

Composição do preço da gasolina

O preço médio da gasolina que chega ao consumidor é composto de 11% de distribuição e revenda; 16,3% do custo de etanol anidro; 27,8% de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço); 11,6% de tributos federais; e 33% da realização da Petrobras, ou seja, custo da gasolina quando sai da refinaria.

Marcelo Camargo/Agência BrasilMarcelo Camargo/Agência BrasilIsso mostra que, diferente da narrativa alimentada pelos bolsonaristas nas redes sociais, o ICMS não é o grande vilão dos constantes reajustes no preço da gasolina. O imposto estadual varia de 25% a 34%, dependendo de cada estado, mas, a média fica em torno de 27% a 28%. Em alguns estados, por exemplo, o ICMS não é reajustado desde 2018.

Para entender melhor o porque de os preços estarem tão elevados, é preciso voltar a outubro de 2016, seis meses após o golpe de Estado que destituiu do poder a presidenta legitimamente eleita, Dilma Rousseff. Sob o então governo golpista de Michel Temer, a Petrobras instituiu a Política de Preços Internacionais (PPI), que tem gerado prejuízos à população até hoje.

A PPI determina que os preços dos combustíveis sejam reajustados de acordo com o valor do barril de petróleo, que tem a sua variação no preço internacional, cotado em dólar. Ou seja, para que o consumidor não sofra, o real precisa estar valorizado ─ o que não tem acontecido no governo Bolsonaro.

“Com a pandemia em 2020, o preço caiu, mas com a retomada da atividade econômica, o momento é de alta , e o consumidor hoje está pagando mais caro em função do preço internacional do barril de petróleo combinado com a desvalorização do real frente à moeda norte-americana”, a pesquisadora do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (Ineep),Carla Ferreira.

O desmonte da Petrobras, iniciado no governo Temer e potencializado no governo Bolsonaro é outro fator que tem contribuído para que o consumidor pague bem mais pelos combustíveis. De 2016 a 2018, a Petrobras diminuiu de 25% a 30% a capacidade das refinarias de petróleo, vendendo unidades e investindo na extração e venda de óleo cru, o que abriu espaço para a chegada de empresas importadoras. 

“Houve desmobilização da produção nas refinarias, e a Petrobras ao optar por exportar óleo cru abriu o mercado para empresas estrangeiras que  têm interesse em encontrar derivados de petróleo a preços internacionais, por isso pressionam para que essa política seja mantida, pois gera mais lucro para elas”, explica a pesquisadora do Ineep.

Resumidamente, tanto Temer quanto Bolsonaro são responsáveis pelos valores exorbitantes que a população paga pelos combustíveis. "É fundamental que tenhamos a Petrobras fortalecida para que o brasileiro não pague tão caro por itens básicos. Mas, para que tenhamos o fortalecimento das nossas estatais, precisando, antes,  tirar Bolsonaro do poder, pois o Brasil com Bolsonaro é um país sem perspectivas de dias melhores", disse o presidente da CUT-DF, Rodrigo Rodrigues. 

Com informações da CUT Brasil