8 de Março: Mulheres do DF e Entorno marcham contra a violência e pela vida
Ato político-cultural em Brasília denuncia explosão nos casos de feminicídio e cobra do GDF investimentos reais na rede de proteção às mulheres
Publicado: 27 Fevereiro, 2026 - 09h07
Escrito por: Marina Maria
As mulheres do Distrito Federal e do Entorno estão convocadas a ocupar as ruas neste 8 de março. Em Brasília, o Dia Internacional de Luta das Mulheres será marcado por um ato político-cultural, com concentração a partir das 13h no Eixo Cultural Ibero-Americano. A partir das 15h, a mobilização segue em marcha em direção ao Palácio do Buriti.
O ato acontece em um cenário estarrecedor. Dados da Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que a violência contra a mulher não é apenas um número, mas uma epidemia. No último ano, o DF registrou índices críticos de feminicídio, evidenciando a face mais hedionda de uma engrenagem estrutural de misoginia que naturaliza agressões, ameaças e estupros.
O ciclo de violência que o 8 de março denuncia é sustentado por estatísticas brutais. Em 2025, o Distrito Federal registrou 33 feminicídios, um aumento drástico em relação aos 23 casos do ano anterior. No Brasil, o cenário é de recorde: 1.518 mulheres foram assassinadas no último ano, uma média de quatro mortes por dia. O perigo mora ao lado: 76% dessas agressões são cometidas por parceiros ou ex-companheiros, e a maioria dos crimes acontece dentro de casa, transformando o lar no lugar mais inseguro para a mulher brasileira.
“Diante desse quadro, é urgente cobrar do Governo do Distrito Federal a ampliação de recursos para a rede de enfrentamento à violência, com fortalecimento das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), das casas-abrigo e das equipes multidisciplinares”, afirmou a secretária da Mulher Trabalhadora da CUT-DF, Thaísa Magalhães.
Segundo a sindicalista, o que se vê é um governo que negligencia investimentos estruturantes em proteção social. “As mulheres seguem desassistidas. A omissão custa vidas. O 8 de março deve ecoar como um recado direto ao GDF: não aceitaremos maquiagem estatística. Queremos orçamento e compromisso real”, declarou.
Thaísa afirmou ainda que, por iniciativa do Governo Federal, e do Ministério das Mulheres, foram inauguradas algumas Casas da Mulher Brasileira no DF, mas o governo local não as estruturou, não destinou equipes e nem verba para dar continuidade ao projeto.
No Brasil, é registrado em média um feminicídio a cada 6 horas. O assédio sexual e moral no trabalho atinge majoritariamente mulheres negras e jovens. Em 2025, o número de ocorrências de violência doméstica (Lei Maria da Penha) no Distrito Federal manteve a tendência de alta, superando a marca de 18 mil casos anuais. A maioria dos agressores são companheiros ou ex-companheiros que não aceitam o fim do relacionamento.
A policial civil Mariana* aponta um problema cultural grave: “O que mais escuto de agressores presos é que 'não são bandidos'. Na cabeça deles, a agressão física ou psicológica é quase um direito. Essa crença de que não fizeram nada errado impede o caráter educativo da pena”, constata.
Além da barreira cultural, existe a barreira física. O DF possui apenas duas delegacias especializadas (DEAM I na Asa Sul e DEAM II em Ceilândia). “Se tivesse pelo menos mais duas, uma para atender a parte norte (Planaltina, Sobradinho) e outra na parte sul (Gama, Santa Maria) seria o ideal. Além disso, seria importante ter a parte do IML que fizeram na Ceilândia para facilitar o acesso e rapidez no atendimento das vítimas. Essa agilidade nos exames sem precisar do deslocamento até a sede do IML, além de ser vantajoso para a vítima, diminui o tempo de realização dos procedimentos de flagrante”, afirmou Mariana.
Mais do que números: o assédio no ambiente de trabalho
A história de Beatriz* ilustra como a vulnerabilidade econômica se torna terreno fértil para o abuso. Após um divórcio conturbado, ela buscou independência financeira como representante comercial. O que começou como um ambiente acolhedor transformou-se em um "inferno" de investidas sexuais e crises de ciúmes por parte do empregador.
Temerosa de perder o sustento do filho, Beatriz suportou o assédio até o limite do inadmissível. Ao sair, perdeu direitos trabalhistas, mas recuperou a paz. “Somos mais do que números”, desabafa ela, que hoje lamenta não ter denunciado o agressor antes de abdicar de seus encargos.
O caso de Beatriz não é isolado. Segundo dados do MTP (Ministério do Trabalho e Emprego), as denúncias de assédio sexual no trabalho no Brasil cresceram significativamente nos últimos anos, mas estima-se que a subnotificação ainda seja enorme devido ao medo de retaliação e ao desmonte de políticas de fiscalização.
Vulnerabilidade e Violência Institucional
A violência contra a mulher também se manifesta na abordagem do Estado. Ayana*, professora e pesquisadora negra, viveu o trauma da coação institucional. Ao retornar de um congresso acadêmico, foi abordada por policiais rodoviários. Mesmo apresentando certificados, crachá universitário e documentos, foi retirada do ônibus e levada para uma delegacia em outra cidade por suspeita de posse de uma quantidade ínfima de entorpecentes.
“Eu tinha 20 anos, estava sem dinheiro e sem celular. Fui levada por três policiais homens armados para uma cidade que eu nem sabia qual era. O medo de estar sozinha com eles foi maior que qualquer outra coisa”, relata Ayana. O episódio de vulnerabilidade extrema revela como o braço do Estado, que deveria proteger, muitas vezes atua de forma intimidatória contra mulheres jovens e negras.
Ocupar para Transformar
As histórias de Beatriz, Mariana e Ayana se cruzam na necessidade de um Estado que proteja, acolha e respeite a autonomia feminina. O 8 de março em Brasília será o momento de transformar o luto e a indignação em luta organizada.
Serviço:
- O quê: Ato Político-Cultural do Dia Internacional de Luta das Mulheres.
- Quando: 8 de março.
- Onde: Concentração no Eixo Cultural Ibero-Americano (antiga Funarte) às 13h; Marcha para o Buriti às 15h.
* Os nomes das personagens desta reportagem foram trocados para preservar as identidades.